Aliados dos EUA Afastam-se e China Avança como Nova Potência de Referência
Enquanto Trump confronta parceiros históricos, Pequim ocupa o vazio diplomático e apresenta-se como alternativa estável numa ordem mundial em transformação.
Publicado em 21/01/2026 08:49 • Atualizado 21/01/2026 08:49
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A ordem internacional parece estar a entrar numa nova fase de realinhamento profundo e, desta vez, nem os aliados mais próximos dos Estados Unidos escondem a vontade de procurar alternativas. À medida que Donald Trump regressa ao palco internacional com uma estratégia de confronto, a China aproveita a oportunidade para se afirmar como um polo de estabilidade e liderança global.

Na antecâmara da chegada de Trump ao Fórum Económico Mundial, em Davos, o presidente norte-americano voltou a semear polémica junto dos parceiros tradicionais, ao insistir na possibilidade de assumir o controlo da Gronelândia, ameaçar com tarifas económicas quem se opuser e expor comunicações privadas de líderes europeus. O efeito foi imediato: desconforto entre aliados e espaço aberto para a diplomacia chinesa.

Poucas horas depois, o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, subiu ao palco em Davos para defender uma visão alternativa da ordem mundial, assente no multilateralismo, na cooperação e no comércio livre. Numa mensagem cuidadosamente calculada, apresentou a China como defensora do consenso global e como força de equilíbrio face à instabilidade provocada por Washington.

Esta estratégia não é nova. Há anos que o presidente chinês, Xi Jinping, defende a necessidade de reformar uma ordem internacional que considera dominada pelos interesses norte-americanos. A diferença agora é que o discurso de Pequim encontra cada vez mais recetividade, num contexto em que os EUA parecem afastar-se dos seus próprios aliados.

Em Pequim, a leitura é clara: não é necessário provocar ruturas, basta manter o rumo enquanto os Estados Unidos enfraquecem as suas alianças por iniciativa própria. E os sinais dessa mudança começaram a tornar-se visíveis em Davos.

Um dos exemplos mais marcantes veio do Canadá. O primeiro-ministro Mark Carney surpreendeu ao criticar abertamente a chamada “ordem internacional baseada em regras”, classificando-a como uma narrativa em parte fictícia, onde os mais fortes escapam às regras quando lhes convém. Sem mencionar diretamente a China como alternativa, a retórica aproximou-se do discurso defendido por Pequim e marcou uma inflexão clara na postura de um dos aliados históricos de Washington.

Mais do que palavras, seguiram-se gestos concretos. O Canadá anunciou recentemente uma nova “parceria estratégica” com a China e suavizou tarifas sobre veículos elétricos chineses, medidas que rompem com a linha seguida até aqui em coordenação com os Estados Unidos. Carney chegou mesmo a afirmar que o país se está a preparar para uma “nova ordem mundial”.

Outros aliados tradicionais dos EUA mostram sinais semelhantes. O Reino Unido tem defendido um maior envolvimento com Pequim e aprovou recentemente a construção de uma nova mega-embaixada chinesa em Londres, numa decisão polémica mas simbolicamente relevante.

Estas aproximações não significam um abandono das preocupações ocidentais face à China, nomeadamente no que diz respeito a Taiwan ou ao impacto do enorme excedente comercial chinês na economia global. Ainda assim, a prioridade de muitos países parece estar a mudar, empurrada pelo receio de um enfraquecimento da NATO e por uma crescente imprevisibilidade da política externa norte-americana.

A China, por seu lado, capitaliza o momento. Em Davos, apresentou-se como parceira económica fiável, rejeitou a ideia de rivalidade e garantiu que o seu crescimento representa uma oportunidade, e não uma ameaça. Uma mensagem que, segundo os media estatais chineses, foi recebida com aplausos entusiásticos.

Num mundo em transição, a combinação entre a assertividade de Trump e a diplomacia calculada de Pequim pode estar a acelerar uma mudança histórica: o fim de um alinhamento global dominado pelos Estados Unidos e o início de uma nova disputa pelo centro da liderança internacional.

Fonte:CNN pORTUGAL / Foto: Andrew Caballero

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