O presidente do Conselho Europeu, António Costa, deixou esta quarta-feira uma mensagem clara ao mundo: a União Europeia quer liderar pelo diálogo económico e não pela imposição de tarifas. Em Estrasburgo, perante o Parlamento Europeu, o antigo primeiro-ministro português sublinhou que a UE prefere construir parcerias comerciais duradouras em vez de recorrer a impostos punitivos, numa referência direta à política comercial dos Estados Unidos.
As declarações surgem dias depois da assinatura do acordo histórico com o Mercosul, que criará a maior zona de comércio livre do mundo. Para António Costa, o tratado representa mais do que um entendimento económico: é um sinal político forte de que a Europa aposta na cooperação e numa prosperidade partilhada, rejeitando lógicas de confronto e de esferas de influência.
Com os olhos postos no próximo grande objetivo, António Costa confirmou que se prepara para viajar para a Índia, acompanhado pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, com a ambição de finalmente concluir um acordo comercial há muito negociado entre Bruxelas e Nova Deli. Segundo o líder do Conselho Europeu, os acordos comerciais funcionam como “livros de regras globais”, enquanto as tarifas acabam por penalizar diretamente cidadãos e empresas.
A União Europeia, recordou, já construiu a maior rede mundial de acordos comerciais, envolvendo 78 países, e está a avançar em negociações com várias economias estratégicas, da Austrália ao Sudeste Asiático e ao Médio Oriente. Ursula von der Leyen reforçou essa visão, manifestando confiança de que um entendimento com a Índia possa ser alcançado em breve, abrindo uma nova etapa nas relações entre os dois blocos.
Sobre o acordo com o Mercosul, António Costa destacou que o entendimento é fruto de mais de duas décadas de negociações e inclui salvaguardas importantes, sublinhando o papel decisivo que o Parlamento Europeu terá nos próximos passos do processo de ratificação.
O presidente do Conselho Europeu aproveitou ainda a ocasião para defender um novo impulso à competitividade da União, à inovação e ao crescimento económico, alertando que prosperidade e coesão social são inseparáveis. Emprego de qualidade, salários dignos e acesso à habitação foram apontados como prioridades centrais para responder às expectativas dos cidadãos europeus.
Entretanto, o Parlamento Europeu vota ainda hoje a possibilidade de submeter partes do acordo UE-Mercosul à análise do Tribunal de Justiça da União Europeia, um passo que poderá atrasar o processo. Quanto à Índia, as negociações já conheceram bloqueios no passado, mas Bruxelas acredita que o contexto atual pode ser decisivo para desbloquear um acordo que começou a ganhar forma ainda durante a presidência portuguesa do Conselho da UE, em 2021.
Num cenário global marcado por tensões comerciais e rivalidades estratégicas, a União Europeia tenta afirmar-se como um polo de estabilidade económica — oferecendo parcerias onde outros levantam tarifas.
Fonte:JN / Foto:europa.eu