O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, alertou para uma crescente “situação de impunidade” no mundo, criticando o desrespeito pelo direito internacional e a fragilização das soluções multilaterais, numa entrevista à BBC divulgada esta segunda-feira.
Segundo Guterres, conflitos que antes eram localizados tornaram-se hoje crises complexas e interligadas, envolvendo múltiplos atores e tornando cada vez mais difícil alcançar soluções duradouras. “Estamos a assistir a uma situação de total impunidade”, afirmou, sublinhando que muitos cessar-fogos acabam por ser apenas temporários, com a violência a regressar pouco depois.
O líder da ONU apontou diretamente à política externa dos Estados Unidos, considerando que a abordagem do presidente Donald Trump reflete a ideia de que o multilateralismo perdeu relevância, sendo substituído pelo exercício do poder e da influência, por vezes à margem das normas internacionais.
Apesar das críticas, Guterres reconheceu o papel dos EUA em várias iniciativas de paz, mas admitiu que a ONU tem hoje uma influência limitada face ao peso das grandes potências. “A influência pode gerar impacto rápido, mas nem sempre resolve as causas profundas dos conflitos”, afirmou, defendendo processos de paz que integrem fatores como direitos humanos e desenvolvimento socioeconómico.
O antigo primeiro-ministro português, que termina no final do ano o seu segundo mandato à frente da ONU, defendeu ainda a organização face às críticas, apontando responsabilidades aos Estados-membros, em especial ao uso do direito de veto no Conselho de Segurança.
Guterres considera que o veto tem sido utilizado para proteger interesses nacionais, criando bloqueios difíceis de aceitar, e defende uma reforma da composição do Conselho de Segurança, bem como a limitação desse poder, para reforçar a legitimidade e eficácia das Nações Unidas num mundo cada vez mais instável.
Fonte:JN / Foto:ONU/Mark Garten Secretário-geral da ONU, António Guterres.